Prefeitura do Rio gastou mais com agência de publicidade do que com escolas de samba


Responsável pela elaboração de um polêmico vídeo que vem sendo divulgado pela Prefeitura do Rio, com críticas ao investimento público no carnaval, a agência de publicidade Propeg Comunicação recebeu, no ano passado, mais recursos do município do que todas as escolas de samba do Grupo Especial juntas.

Dados levantados pelo blog no portal Rio Transparente mostram que a gestão de Marcelo Crivella desembolsou, em 2018, R$ 13,6 milhões somente com essa empresa de propaganda. Deste valor, a maior parte, cerca de R$ 10 milhões, saiu da Secretaria da Casa Civil. O restante ficou com a Secretaria de Ordem Pública. Já as agremiações da elite da folia carioca receberam um total de R$ 13 milhões.

Mais de R$ 10 milhões em 2019

Apesar de um ator afirmar logo no início do vídeo que “o desfile das escolas de samba custa para a prefeitura R$ 70 milhões”, este ano, o valor repassado para as agremiações do Grupo Especial foi de R$ 7 milhões. Já a Propeg recebeu até este mês R$ 3,6 milhões. A outra agência de publicidade do município, a Binder, já foi contemplada com R$ 6,8 milhões. Ou seja, somente nos cinco primeiros meses do ano, já foram gastos R$ 10,4 milhões com propaganda na gestão Crivella.

Os dados do Rio Transparente mostram ainda que a rubrica “Projeto Carnaval” recebeu este ano R$ 17 milhões, valor que inclui, além do repasse às escolas de samba, custos adicionais com marketing, serviços gráficos, conservação de vias urbanas, entre outros.

Segundo um texto publicado em março no próprio site da prefeitura do Rio, o carnaval de 2019 injetou R$ 3,78 bilhões na economia da cidade, com a chegada de 1,6 milhão de turistas.

No vídeo produzido pela Propeg, é destacado que os que lucrariam mais com o carnaval seriam a Liesa e a Rede Globo. Como contraponto, o ator destaca que o município tem que arcar com 200 mil funcionários e aposentados, além de 650 mil crianças para serem atendidas.

Licitação de R$ 56 milhões

As agências de publicidade Propeg e Binder já atuam na prefeitura desde a gestão de Eduardo Paes. A gestão Crivella, porém, pretendia fazer desde o ano passado uma nova licitação que prevê um gasto de até R$ 56 milhões por ano com três empresas.

O processo vinha se arrastando, principalmente após questionamentos do conselheiro do Tribunal de Contas do Município (TCM) José de Moraes, que avaliou inicialmente que o valor seria excessivo para uma prefeitura que enfrenta sérios problemas financeiros.

“Reverter a imagem do município”

Moraes pediu explicações a respeito do briefing da licitação, que falava em campanhas “em caráter institucional para reverter a imagem do município”. Entre os pontos, também constava “apresentar uma gestão comprometida com novos valores morais e éticos”.

Ainda como secretário municipal de Casa Civil, o vereador Paulo Messina deu explicações que acabaram convencendo o conselheiro da necessidade de licitação. Entre os pontos, que a “falta de publicidade acarretaria em problemas como a diminuição de resultados em serviços fundamentais para a população e também na redução, ainda maior da arrecadação”.

Com isso, na semana passada, a prefeitura publicou uma tabela com a classificação da licitação e abriu o certame para recursos. As três empresas que ficaram à frente foram a Cálix Propaganda, a Agência Nacional de Propaganda e a E3 Comunicação Integrada. A Propeg ficou na quinta colocação, e a Binder na nona. A X-Tudo Comunicação, que atende ao Flamengo, ficou em 12º lugar e foi desclassificada.

Liesa na berlinda

O carnaval já passou faz tempo, mas ainda rende na prefeitura. Na Câmara dos Vereadores, há uma CPI em andamento para apurar a licitação de camarotes.

A situação da Liesa também está longe de ser das mais confortáveis. Nesta segunda (11), a liga não pagou uma multa de R$ 750 mil por ter cancelado o rebaixamento da Imperatriz Leopoldinense, descumprindo um acordo assinado com o Ministério Público.

Outro problema é uma ação de 1995 em que o MP questiona o contrato assinado sem licitação entre a Liesa e a prefeitura, que teria causado prejuízo aos cofres públicos. São mais de R$ 70 milhões, em valores atualizados, que estão na mira da Justiça do Rio.