As histórias de profissionais de saúde que morreram no Rio na luta contra a Covid-19

Na linha de frente no combate ao novo coronavírus, profissionais de saúde são os heróis de jaleco, mas também estão entre as vítimas da doença no estado. São médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e maqueiros que, mais expostos à contaminação, acabam perdendo a vida para a Covid-19. Com base em dados do Conselho Regional de Medicina do estado do Rio e do Conselho Federal de Enfermagem, o EXTRA conta a história de 11 deles. O caso mais recente confirmado é do técnico de enfermagem Alex Sandro de Carvalho, de 39 anos e sem comorbidades, que estava internado com diagnóstico positivo para a Covid-19.

De acordo com dados da Secretaria estadual de Saúde do Rio, atualmente há 1.043 profissionais de saúde da rede afastados por suspeita ou confirmação de contaminação pelo novo coronavírus. Esse número representa 5,4% dos profissionais que atuam nas emergências e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do estado. O Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, é o que tem o maior número de profissionais afastados, 186. A secretaria, no entanto, não respondeu sobre o número de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem mortos pela Covid-19 no estado

última vez que o técnico em enfermagem Jorge Alexandre de Oliveira Andrade, de 45 anos, encontrou seus quatro filhos foi no dia 27 de março, duas semanas antes de morrer de Covid-19. No período em que permaneceu internado num hospital particular em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, Jorge só falava com a família por vídeo chamada, pelo celular.

Até o dia 6, mesmo com diabetes, hipertensão e obesidade — comorbidades da Covid-19 —, Jorge seguiu sua rotina de trabalho normalmente no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, unidade de referência no tratamento da doença. Na semana seguinte, logo que foi diagnosticado com o coronavírus, o técnico em enfermagem já tinha metade do pulmão comprometido. No dia 13, sua morte foi confirmada.

Profissionais do Hospital Lourenço Jorge fizeram uma salva de palmas na porta da unidade em homenagem ao amigo no dia seguinte à morte. “Nosso amigo da enfermagem, sentiremos saudades. Que Deus conforte os corações em luto. Descanse em paz”, dizia um cartaz feito pela equipe do hospital.

Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques, aos 23 anos, a endocrinologista tinha um consultório particular na Barra da Tijuca e trabalhava em clínicas populares em Bangu, Campo Grande e Taquara. Segundo o Cremerj, Claudia era diabética e hipertensa. Seu irmão, o cirurgião dentista Claumyr Cardoso, afirma que no dia 1º de abril, a médica relatou à família que estava com sintomas de um resfriado, mas não parou de trabalhar e acabou falecendo no último dia 8:
—Chegamos a falar para ela redobrar os cuidados, mas ela disse que era um resfriado leve e que não poderia parar de trabalhar. No dia 6 de abril, o filho dela, que também é médico, fez uma visita e viu que a mãe não estava bem. Logo pela manhã, ela deu entrada no Hospital Casa São Bernardo, na Barra da Tijuca. Mas, de um dia para o outro, a situação se agravou muito: na manhã do dia 8, ela teve uma parada cardíaca e morreu.
Claumyr conta que a irmã tinha hipertensão e diabetes tipo 2 e que o marido dela, o dentista Jorge Carlos da Costa, também foi contaminado pela doença.
— Um dia depois da Claudia ser internada, o marido dela também foi. Ele chegou a ficar entubado, mas felizmente teve alta na última quinta-feira. Estamos muito abalados com tudo isso. Minha irmã exerceu o seu ofício até ser vencida pela doença
Ricardo Antonio Piacenso, 62, cardiologista
Formado pela Faculdade de Medicina Souza Marques, Ricardo se tornou avô de uma menina há cerca de quatro meses. Pai de dois filhos, ele estava internado no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, unidade de referência no combate ao coronavírus, em Acari. O médico morreu no dia 5 de abril, aos 62 anos.
Sua esposa, Rhosy Piacenso, lamentou o ocorrido por meio de uma rede social. Ela contou que perdeu o marido após uma relação de 34 anos e relembrou os momentos de companheirismo, cumplicidade e amor entre os dois.
— Ao acordar, sempre aquela mesa do café da manhã preparada para mim com carinho e quase sempre com vasinhos de flores. Nossa, toda vez que abro a porta de casa, para mim, você vai voltar a qualquer momento com aquela carinha de feliz em retornar para casa e ficarmos juntos — contou Rhosy, que concluiu a declaração: — Você sempre será nosso herói, onde em sua profissão de médico foi sempre responsável e sensível com a dor dos seus pacientes.

José Manoel de Melo Gomes, 64, anestesiologista
José Manoel de Melo Gomes, de 64 anos, era médico anestesiologista. Trabalhou a vida toda no Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins, onde fez residência; e no Oeste Dor, em Campo Grande, bairro onde morava. Segundo o Cremerj, José Gomes, que morreu no último dia 5, era muito querido pelos colegas por sua excelência profissional e alegria.
Numa rede social, amigos lamentaram a morte do anestesiologista. Em uma das homenagens, uma colega de trabalho publicou “Hoje, o dia amanheceu triste! A Medicina e a Anestesia perdem um colega ímpar! José Manoel Melo Gomes, muito obrigada pelos ensinamentos em nossos plantões, pela paciência em nosso sistema falido e pela dedicação a todos os pacientes! Que Deus receba você de braços abertos, meu amigo! Você foi um guerreiro nesta luta!”.
João Batista Marangoni, 65, clínico geral e pediatra
Morador da Tijuca e médico há mais de 30 anos, João Batista Marangoni morreu de Covid-19 no último dia 9, deixando uma mulher e uma filha. Portador de mielodisplasia, trabalhava no sistema regulação de vagas do SUS e passou a apresentar sintomas que não são os mais comuns para a doença, como diarreia e fraqueza. A família decidiu não levá-lo imediatamente ao hospital justamente em razão dos sintomas não serem os mais recorrentes para Covid-19. Contudo, após não apresentar melhora, foi levado ao hospital da Unimed Barra da Tijuca, onde foi internado de imediato, como conta a filha Luisa Marangoni, de 29 anos:
— A gente não o levou para o hospital justamente porque os sintomas não eram de coronavírus, então tínhamos medo de que ele pudesse se contaminar. Ele só passou a sentir febre dias depois e passou duas semanas internado.
Katya Marangoni, viúva de João e mãe de Luisa, o descreveu como uma pessoa amável.
— Foi uma grande perda porque ele era um excelente pai, um excelente marido e excelente profissional. Já recebeu homenagens de colegas de trabalho e era muito querido pelos amigos — assegura

Anita Souza Vianna, 63, técnica de enfermagem

A técnica de enfermagem Anita de Souza Vianna, de 63 anos, morreu na ultima quinta-feira (16), também em decorrência da covid-19. Ela trabalhava na linha de frente do combate ao coronavírus, no Hospital Ronaldo Gazolla. Após não conseguir um leito disponível onde trabalhava, foi transferida para o Hospital Estadual Zilda Arns, em Volta Redonda, onde ficou internada por quatro dias. Mas não resistiu, deixando três filhas e o marido.

Na sexta-feira, um dia após o óbito, uma das filhas da técnica publicou em suas redes sociais uma foto da mãe sorrindo, com a seguinte legenda: “É assim que vou lembrar de você…sempre com esse sorriso encantador. Mãe, para sempre vou te amar”. No sábado, dia seguinte, compartilhou uma imagem com os dizeres “A ignorância dura até você perder um familiar. Fica em casa. Mantenha o distanciamento social”.

Sobrinha da vítima, Luziney Reis afirma que Anita, que ficou internada entre os dias 13 e 16 no Zilda Arns, não tinha comorbidades preexistentes:

— Quando ela começou a sentir os sintomas da doença, foi ao (hospital) Gazolla, e simplesmente mandaram ela tomar dipirona e ir para a casa sem fazer o teste para identificar se era covid ou não. Ela era uma pessoa super querida e atenciosa com os pacientes, que sempre tinha uma palavra amiga para oferecer