Coronavírus: por falta de espaço, corpos se acumulam em macas em hospital no Rio

Por causa do alto número de mortes durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, o necrotério do Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, na Zona Norte do Rio, não tem mais espaço em suas câmaras frigoríficas. Um vídeo obtido ontem pela TV Globo mostra mais de dez cadáveres em sacos plásticos, em cima de macas e fora das gavetas refrigeradas. Em nota, a Secretaria municipal de Saúde do Rio afirmou que um contêiner frigorífico já foi alugado para aumentar a capacidade de conservação de corpos na unidade, mas sua instalação ainda não ocorreu. Outros quatro hospitais também já contam com os contêineres, e a secretaria reconheceu que ainda poderá adotar a mesma medida em outras unidades.

A assessoria de imprensa do órgão explicou que o Salgado Filho tem 12 gavetas refrigeradas, e que os corpos mostrados no vídeo exibido pela TV Globo estão dentro do necrotério, que também é um ambiente refrigerado. Na nota oficial, a secretaria declarou que nem todos os corpos que aparecem na gravação são de vítimas da Covid-19. Além dos cadáveres de pessoas que morrem no próprio hospital, o Salgado Filho ainda recebe corpos de outras unidades de saúde da região, além daqueles que ficam à espera de identificação pelo Detran-RJ.

O Detran diz em nota que “não é o órgão responsável pela identificação de pessoas mortas. Por isso, a citação do Detran à matéria sobre corpos aguardando identificação em hospitais não é correta”.

O vereador Paulo Pinheiro (PSOL), membro da Comissão de Saúde da Câmara Municipal do Rio, explicou que no local onde os corpos foram colocados, dentro do necrotério, realmente há refrigeração. No entanto, ele afirmou que a conservação não é a mesma de quando o cadáver está em gavetas.

— Ali (no necrotério) há refrigeração, mas não é a mesma coisa do que se o corpo estivesse nos morgues (câmaras refrigeradas). A temperatura dentro dos morgues é bem menor do que a do lado de fora. Isso pode comprometer a conservação dos corpos — ressaltou Pinheiro, que é médico e, antes de entrar na vida política, foi diretor do Hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, na Zona Sul do Rio.

Segundo a Secretaria municipal de Saúde, já estão operando com contêineres frigoríficos os hospitais municipais Souza Aguiar, no Centro, o Evandro Freire, na Ilha do Governador, o Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, e o Ronaldo Gazolla, em Acari. Este último é a unidade de saúde da Prefeitura do Rio que é considerada referência no tratamento contra a Covid-19.

A Secretaria estadual de Saúde também adotou a mesma medida no Hospital regional Zilda Arns, localizado em Volta Redonda, no Sul Fluminense. De acordo com o órgão, o contêiner foi instalado com a finalidade de armazenar os cadáveres em locais mais adequados em razão do avanço da pandemia. A iniciativa também será adotada nos hospitais de campanha “com o objetivo de reduzir o impacto no atendimento e preservar os pacientes internados”.

Medida adotada em outras cidades

Na nota enviada ao EXTRA, a Secretaria municipal de Saúde do Rio frisou que a instalação dos contêineres frigoríficos ao lado de unidades de saúde tem sido uma medida adotada durante a pandemia do novo coronavírus em várias cidades do país. O objetivo é cumprir a orientação do Ministério da Saúde para armazenagem dos corpos das vítimas da Covid-19.

Ainda segundo a assessoria do órgão, o objetivo dessa medida é também aumentar preventivamente a capacidade dos necrotérios e dar suporte às demais unidades de saúde das suas regiões. A assessoria de imprensa da Secretaria estadual de Saúde também frisou, em um comunicado, que os contêineres frigoríficos têm sido usados em vários países.

Na última semana, o EXTRA já havia denunciado a falta de locais para corpos no Hospital municipal Moacyr do Carmo, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O necrotério da unidade de saúde ficou superlotado, com corpos fora das gavetas refrigeradas, e alguns cadáveres ficaram espalhados pelo corredor da unidade. A informação foi confirmada pela prefeitura de Caxias, responsável pela administração do hospital.

Pelo menos 15 corpos estavam no corredor próximo ao necrotério, que tem capacidade para 25 cadáveres e fica no subsolo. Segundo servidores, o mau cheiro podia ser sentido dos corredores da unidade.