Sem vaga em UTIs do Rio, doentes morrem em casa

A alta de casos e mortes por Covid, os leitos escassos e as UTIs saturadas. A tempestade perfeita se formou, sob a última etapa de flexibilização da quarentena, e ontem a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um mais importantes centros de pesquisa em saúde pública do país, declarou, numa nota técnica, obtida pelo EXTRA, que a rede do SUS da capital do Rio está com seu sistema de saúde pública em colapso. Com a menor oferta de leitos e uma demanda reprimida de pacientes que ficaram em segundo plano no início da pandemia, muitas pessoas infectadas pelo novo coronavírus ou que lutam com doenças crônicas ficaram sem atendimento médico ou UTIs. O resultado é que estão morrendo dentro de casa.

— Já vemos o colapso no sistema. E nem todos (os óbitos) foram por Covid-19, mas indiretamente de pessoas que ficaram sem assistência — comenta o sanitarista Christovam Barcellos, membro do Monitora Covid-19 e pesquisador da Fiocruz.

Ontem, 172 pessoas aguardavam por um leito de UTI na cidade e na Região Metropolitana, que contempla a Baixada Fluminense. A taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva chega a 90% (552 pessoas internadas). No estado, houve mais 81 mortes e 3.415 casos. Há 14 dias, a média móvel de casos da doença cresce.

O levantamento da Fiocruz foi feito até o dia 1º de dezembro, e por isso os dados de novembro, que ainda estão sendo inseridos, podem sofrer alterações. Os pesquisadores apontam ainda que as unidades de assistência básica e emergências sofrem o mesmo esgotamento. Um quadro que acentua o risco de morte. Setembro e outubro concentraram 1.100 óbitos a mais do que o esperado para o período. “Esse quadro aponta para uma condição de colapso do sistema de saúde, não somente dos hospitais, mas também da atenção primária”, avalia a nota da Fiocruz. E completa: com ações de prevenção e tratamento oportuno de doenças crônicas, seria possível evitar o grande numero de óbitos, inclusive de pacientes que ficaram sem assistência.

15% de óbitos em domicílio

A proporção de mortes que ocorreram em casa na capital até o último dia 1º, em comparação com o mesmo período de 2019, subiu. Hoje, os óbitos em domicílio respondem por 15% do total, enquanto a média para o mesmo período no ano passado era de 12%. A proporção constatada em novembro é maior, inclusive, da que foi vista no pico da pandemia. “O que pode demonstrar incapacidade de diagnóstico e de internação de casos graves, tanto de doenças crônicas quando de Covid”, diz um trecho da nota da Friocruz.

Do total de mortes no Rio de janeiro por Covid-19, só 40% foram em UTIs. “Provavelmente mais da metade da população que veio a óbito pelo coronavírus no município nem sequer teve chance de atendimento intensivo”, alerta o documento.

— Há outras doenças que não pararam no tempo — diz Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia da Uerj e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A nota da Fiocruz destaca que os problemas tendem a aumentar com as festas de fim de ano. Procurada, a Prefeitura do Rio informou que foi a que mais abriu leitos de Covid no país.